19
de
março
Por que julgamos mais importante a obediência do que a inteligência?
Muitas vezes, quando faço essa pergunta aos gerentes ou gestores, me respondem: “porque fica mais cômodo, e evita aborrecimentos!” Entretanto, é justamente ao contrário, pois fica sendo muito menos cômodo, pois obriga a um só gestor, ser o único a pensar por todos, sempre.
Muito provavelmente você assistiu o filme A Sociedade dos Poetas Mortos, protagonizada pelo Robin Willians que desempenha um professor de literatura, e numa cena, outro professor comenta com ele o seguinte: “Vi você dando aula de poesia na quadra de bola ao cesto, o seu método é bem original e diferente!” Ao que ele responde: “é sim, faço isso porque entendo que ensinar é ensinar a pensar!”. O outro professor então retruca: ”Na idade deles? É uma temeridade!”
Esta cena descreve exatamente o que percebemos em muitas empresas ou departamentos. Na maior parte delas, os gestores parecem ter receio que as pessoas aprendam a pensar, e querem dominar tudo pelo poder.
É evidente que há exceções, e exceções não são regras, são simples excessões.
Imagine se ouvíssemos a seguinte expressão: “Chefe, desculpe, mas eu pensei”! Um absurdo, mas quer dizer que se pensar tem que se desculpar. E o que acarreta isto? As pessoas pensam (todas elas), mas não dizem para o chefe.
Como já mencionamos, existem situações aonde a inteligência chega a ser excluída do ambiente da organização, porque por incrível que pareça ela não significa só soluções e evoluções, ela traz também turbulências. E então, quanto menos as pessoas tentarem mudar o que já existe, e quanto mais se encaixarem e se padronizarem, melhor para todos, pois menos mudanças terão.
Absurdo, como se fosse possível evoluir sem mudar!
Em outras empresas por mais incrível que possa parecer, quanto mais o colaborador se despersonalizar e se omitir, mais bem avaliado será, pois, usa-se o conceito, “ele é bem mandado”, e ouvimos citações absurdas como estas:
a- Fulano? Puxa vida, ele é ótimo sempre, muito bom, é super fácil liderá-lo!
b- Beltrano? Sem chance, pelo amor de Deus, ele vive “criando casos” e querendo fazer as coisas a seu modo. É um “horror” trabalhar com ele.
c- Sicrano ? Acho que você ficou louco, mas eu não. Não lembra o que ele fez com o chefe anterior? Não deu sossego enquanto não conseguiu mudar aquele procedimento. Comigo ele não trabalha de forma alguma.
Certa vez, estava numa consultoria comercial, acompanhando a reformulação das equipes de vendas, com a participação de supervisores e gerentes que deveriam dividir os vendedores em equipes.
Todos já conheciam muito bem os componentes do departamento.
A reunião demorou algumas horas, pois não havia consenso, até que um dos gerentes sugeriu retirar da lista todos aqueles “difíceis” (a expressão é claro que foi outra). E assim foi feito, isto é, fizeram uma listinha com os nomes dos chatos.
Excluídos estes, ficou fácil e conseguiram “montar” três das quatro equipes, mas ficou a questão, do que fazer com os que sobraram. Eu presenciando tudo aquilo, levantei-me e disse para um dos supervisores: “fulano, fique com esses todos, eles serão sua equipe”.
Neste momento, ouvi coisas de todos os tipos:
- Esse cara tá doido;
- Vai ficar louco com eles;
- Tá querendo bancar o herói;
- Só fez isso porque quem vai supervisionar é fulano;
- Prá ele é fácil, é consultor, vai embora amanhã e deixa a bomba pro supervisor.
Pois bem, o supervisor acabou aceitando minha sugestão e ficou com a equipe dos discriminados.
Adivinhe quem cumpria todas as metas e objetivos? É claro que era esta equipe, porque eles eram, na verdade os únicos que sabiam vender efetivamente. O problema era fazê-los trabalhar focados exclusivamente nas vendas, o que nem sempre era fácil, pois estavam viciados em “achar problemas nos outros departamentos”, mas uma vez conseguido o foco, ninguém produzia mais do que eles.
Uma coisa era bem verdade, eles davam muito trabalho ao supervisor e gerente, mas, e os outros também não davam? Davam, e muito mais, porque simplesmente não produziam, mas ninguém quis os que sabiam vender.
Quantas e quantas vezes alguns gestores estão tomando decisões sobre posicionamentos de outros, pensando exclusivamente em si mesmos, e não na empresa e ou nos resultados que precisam ser realizados?
A questão é pra se pensar e corrigir: porque valorizamos mais a obediência do que a inteligência?

